
Extrato da Intervenção do Sr. Casimiro Veloso, Deputado do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Resende
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal, demais membros da Mesa, Senhor Presidente da Câmara, Senhores Presidentes de Junta, vereadores, deputados municipais, autoridades, convidados, minhas senhoras e meus senhores,
É com honra e sentido de responsabilidade que participamos nesta sessão evocativa do 25 de Abril, símbolo maior da liberdade, da democracia e da dignidade do povo português.
Saúdo todos os presentes, em especial os antigos titulares de cargos autárquicos aqui presentes, cuja dedicação contribuiu para o desenvolvimento do nosso concelho. A sua presença enriquece esta celebração.
I - Recordamos hoje a Revolução de 25 de Abril de 1974, o “dia inicial inteiro e limpo”, que pôs fim a um regime autoritário marcado pela ausência de liberdades, censura, repressão e guerra colonial. Liderada pelo Movimento das Forças Armadas, esta revolução abriu caminho à democracia, culminando na Constituição de 1976 e na consagração dos direitos fundamentais.
Mas mais do que um acontecimento político, abril representa uma profunda transformação coletiva: a passagem do medo à liberdade, da opressão à esperança. O cravo vermelho tornou-se símbolo dessa mudança — sinal de paz, coragem e renovação, traduzindo a capacidade de transformar a força destrutiva em força criadora.
Celebrar abril é, por isso, mais do que recordar o passado. É reafirmar um compromisso com a liberdade, a justiça e a participação cívica. É reconhecer que a democracia exige memória, vigilância e continuidade.
Que esta sessão seja um momento de reflexão e de renovação desse compromisso. Porque celebrar abril é, acima de tudo, continuar abril.
II- Que ecos da Revolução dos Cravos se fizeram sentir em Resende desde 1974, e de que forma marcaram o seu percurso, identidade e desenvolvimento?
Em Resende, terra voltada ao Douro e moldada pelo trabalho, abril chegou como promessa de dignidade, voz e futuro. Uma terra que conheceu dificuldades, mas nunca deixou de acreditar.
Hoje evocamos abril olhando para Resende como símbolo de progresso, esperança e comunidade. Mais do que um momento nacional, o 25 de Abril teve impacto direto no concelho, ainda que as mudanças iniciais tenham sido lentas, marcadas por limitações estruturais e resistência.
No início dos anos 70, Resende vivia essencialmente da agricultura, com indústria pouco desenvolvida. A emigração e o êxodo rural provocavam envelhecimento e perda demográfica. As infraestruturas eram escassas, com serviços concentrados e acessibilidades difíceis.
Com a revolução, iniciou-se uma nova etapa: eleições livres em 1976, maior participação cívica e uma administração mais próxima. Apesar de gradual, a mudança foi estrutural.
Segundo o historiador J. C. Duarte, após uma comissão administrativa inicial, as primeiras eleições trouxeram novas lideranças. Destaca-se o contributo de Brito de Matos, que investiu em vias de comunicação, infraestruturas e na ligação entre comunidades, incluindo a construção da Ponte da Ermida.
A partir de 2001, com nova liderança de António Borges, o concelho conheceu transformações profundas, enfrentando desafios como o envelhecimento e a saída de jovens. Apostou-se na valorização do património, cultura e identidade local, com promoção turística, apoio a iniciativas culturais e investimento em inovação.
No plano económico, destacou-se o setor agroalimentar, com produtos como a cereja e o vinho, e o turismo sustentável ligado ao Douro, com intervenções nas fluvinas de Aregos, Porto de Rei e Barrô. Simultaneamente, reforçaram-se serviços essenciais, educação, habitação e condições de fixação da população.
A projeção externa do concelho ganhou relevância através do marketing territorial e parcerias, afirmando Resende no contexto regional e nacional.
O apoio ao associativismo, desporto, folclore, bandas e bombeiros fortaleceu a coesão social e preservou a identidade cultural. Esta visão contribuiu para uma comunidade mais participativa e unida.
Resende de hoje reflete investimento em saúde, educação, apoio social e infraestruturas, bem como valorização de recursos estratégicos como as termas de Aregos. Outras lideranças deram continuidade a este percurso, consolidando projetos e dinamizando o território.
Ao longo de décadas, o desenvolvimento promovido criou bases sólidas para o futuro. Espera-se agora que novas lideranças deem continuidade a uma estratégia integrada, capaz de gerar impacto económico duradouro e melhorar a qualidade de vida.
Para continuar a evoluir, Resende precisa equilibrar tradição e inovação: valorizar o território, fixar jovens, investir na digitalização, melhorar acessibilidades e reforçar a sua atratividade.
O grande desafio mantém-se: fazer de Resende um lugar onde se viva com qualidade, se trabalhe com dignidade e se visite com prazer — fiel ao espírito de abril.
Senhor Presidente, minhas senhoras e meus senhores
Caros concidadãos
Hoje, muitos sentem que há desigualdades persistentes (salários, acesso à habitação), existe desconfiança nas instituições políticas, o individualismo cresceu face ao sentido de comunidade, a participação cívica é mais fraca do que o entusiasmo revolucionário de 1974, ou seja, não é que abril tenha “falhado” — é que ele não é um ponto de chegada, é um processo.
Mostrar aos jovens que a liberdade não é uma coisa abstrata nem ‘garantida’ sem alarmismo, mas com honestidade: a democracia exige participação, e a abstenção, desinformação ou desinteresse têm consequências, ou seja: o 25 de Abril não está “feito” — está em manutenção.
É preciso traduzir o “espírito de abril” para hoje através do ativismo climático, defesa de direitos sociais, voluntariado, participação local. Isso liga o passado a ações concretas no presente.
No fundo, a chave é esta: — não ensinar o 25 de Abril como memória, mas como responsabilidade.
Num contexto marcado por desafios como a desinformação, o afastamento dos cidadãos da política e o crescimento de discursos extremistas, os ideais de abril recordam a importância da participação cívica, do pluralismo e do respeito pelos direitos humanos. Mais do que um marco histórico, o Dia da Liberdade que comemoramos hoje, é um símbolo vivo que apela à responsabilidade de preservar e aprofundar a democracia todos os dias.
Em suma, o maior desafio da democracia portuguesa é este: ela depende de cidadãos que escolham, de forma consciente e responsável, participar, questionar e agir. Sem isso, a liberdade torna-se apenas formal, e não verdadeiramente vivida.
Perante os desafios colocados por forças políticas grosseiras e turbulentas como o CHEGA, a resposta não pode ser o afastamento nem o silêncio, mas sim o reforço consciente e ativo da democracia. A liberdade exige cidadãos informados, críticos e participativos, capazes de confrontar ideias com rigor e não com simplificações ou reações impulsivas.
Mais do que rejeitar discursos, importa compreender as suas causas e responder-lhes com soluções que respeitem os direitos fundamentais e promovam a justiça social. Só assim será possível preservar uma democracia viva, autêntica e fiel aos valores de abril, onde a responsabilidade individual se traduz num compromisso coletivo com o futuro.
Para concluir, caros amigos e concidadãos, gostaria que ficássemos com esta imagem: Tal como não conseguimos olhar diretamente para o sol sem ficarmos ofuscados, também o poder pode cegar — tanto quem o exerce como quem o observa. Por isso, exige-se vigilância, sentido crítico e responsabilidade, para que a sua luz não se transforme em ilusão, mas antes em serviço claro ao bem comum em liberdade e respeito pela diferença.
Viva a liberdade
Viva Resende
(Extrato da intervenção do Dr. Casimiro Veloso, Deputado do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Resende)
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